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Rio de Janeiro, 11 de Julho
É meia-noite. Terminamos a primeira apresentação de “Efeito Urtigão”. Foi bem legal. Mas eu ainda não sabia que no sábado, dia 12, seria melhor. Bortolotto e eu estaríamos bem mais afinados. A Fernanda D`Umbra assistiria e elogiaria muito. Mas agora, dia 11, estou sentado no degrau de um bar, frente ao Centro Cultural Sérgio Porto, onde rola o CEP 20.000. Chove. Chove muito. Estou no segundo conhaque. O dramaturgo está dentro do bar conversando com uns amigos, enquanto Montenegro, D´Umbra e Chacal estão no Centro preparando-se para suas apresentações. Pierre, Luana, Ademir Assunção e Dany, também estão lá. Levanto-me, vou até o balcão e peço mais uma dose, um bloquinho de papel e uma caneta. Volto ao degrau e tento escrever. Uma pantamo azul e branca 52084 da PMERJ encosta na porta do bar. Dois policiais armados até os dentes saltam da viatura e adentram o bar. Um homem, vestindo uma kalça larga e kazako e gorro pretos sai do bar e entra no kamburão. Passa algo para o policial que está no volante da viatura. Eles trokam umas risadas e o homem de preto volta para o bar. Os dois policiais saem do bar e um deles demora a entrar na pantamo. Fika em pé, sob a chuva e me enkara por um tempo. __Será que ele notou que eu anotei o número do karro?__ Olho de viés e depois para cima. Chove a chuva do demônio. A chuva de Deus só kai do céu, quando o policial retorna para dentro da eskura viatura e parte. Sinto o alívio da chuva de Deus, que molha meu rosto, encharka minhas vestes, me eskapa por entre os dedos e logo mancha o papel com a tinta azul da kaneta bic, borrando o que eu escrevia. Tento salvar o papel…Eu o guardo no bolso de minha jaqueta molhada. Chove aos kântaros. A imagem dela volta e eu não quero pensar em nada. Por que as lágrimas que ela salgou, têm que misturar-se à chuva para que eu disfarce a minha dor? Por que a dor? Perco a vontade de estar onde estou e de tentar me divertir, de misturar-me à turba e ser feliz.
Quero voltar para o hotel e dormir. “ vai ser difícil”__pensei. Aqui no Rio, não aceitaram minha receita azul, porque a receita é de São Paulo. Pergunto-me; E se eu precisasse de um Gardenal, komo seria? Provavelmente morreria na porta de uma pharmácia tentando convencer o balconista de que eu precisava realmente do medikamento. Que droga! Mas era apenas um Valium. Os meus últimos, dividi kom dois amigos antes de embarkar para o Rio. Volto para o Centro Cultural e penso em desintegrar. Bebo mais e fiko kantando Doors, numa salinha isolada do tumulto do evento. Perco-me do resto do pessoal e volto só para o hotel no Centro da Cidade. A imagem dela não se desfaz. Deixo minha mala no hotel e vou beber na Rua do Lavradio. Ninguém fala comigo e eu não quero konhecer ninguém. Fico sentado no meio-fio pensando num verso da letra que o Pinduka escreveu para eu musikar: “…ervas, trevas, tremores, temores de que a casa caia. Nem sempre noites de tórridos horrores, nem sempre murros com urros de riscar facas/ mas quando o sol solvente dissolve a paisagem, eu viro muro de arrimo de mim mesmo e me aprumo…”
A chuva de Deus cessa e o ar esfria. Volto meio bêbado para o hotel e consigo dormir. Sonho com ela, kom seu korpo esguio, kom seu sexo em chamas e kom amor que nunka faremos. No sonho, tenho vontade de matar alguém. Acordo com um sabor de vidro e korte, adocikado em minha boka. O lençol tem sangue. É sangue de meu nariz. Régis Santos, com quem divido o quarto, dorme e ronka muito. Tomo uma ducha e vou beber um kafé na Rua D.Pedro I. Passo em frente ao décimo terceiro batalhão da PM. Por um akazo infernal, dou de kara kom o policial da noite anterior. Ele me acena kom a kabeça. O dia é de sol.
Escrito por paulodetharso às 15h57
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