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Paulo Fabiano
Deus, Marx, EU e o Rato.
Fui ao teatro X assistir “A Voz Subterrânea”. Não sou crítico de teatro, mas gosto de teatro. Não sei falar dessa arte, mas gosto de ver gente talentosa no palco. Não sei analisar, mas sou fã de Dostoiéviski. Como disse outro dia, estou ator, e em breve estarei me despedindo dessa bela profissão que respeito muito, mas para qual não fui talhado. Depois de assistir esse espetáculo, isso ficou ainda mais claro para mim. Como ator, já esgotei todas as “vias e métodos de criatividade”. Portanto, cheguei ao limite do qual minha consciência (demasiada humana) não pode mais se estender.
A Peça.
O sax desconcertado em super tônikas, executadas com talento pelo músiko-ator Piê, surge sob uma luz tênue, no alto, à esquerda da platéia, e anuncia a conclusão destrutiva, porém extremamente filosófica, de um homem que fora funcionário público, e que agora, muito doente, começa a confessar. “Aos quarenta anos o homem confessa”.
Ele procura uma saída dessa desventura existencial, bramindo contra todas as teorias inventadas pelos homens, num desejo inglório de lançá-las por terra. Mas o que encontra, ao final dessa busca incontinente, é um buraco escuro e ignóbil, chamado século novo, aonde irá se esconder como um rato.
Esse texto, adaptação do livro “Memórias do Subsolo” de Fiódor Dostoievski (cujo conteúdo permanece inalterável, o que de saída já é uma proeza, pois é literatura de primeira grandeza), apresenta um personagem que assume sua decadência física, sua impotência e desilusão frente à humanidade. Antes mesmo de a Revolução Bolchevique eclodir o autor, em sua obra, proclama o fim do Maximalismo, Mencheviquismo e de todas utopias. Talvez por isso, anarquistas armados, pedissem aos seus soldados que lessem Pyotr Alexyevich Kropotikin e Fiódor Dostoiéviski, antes de acompanhar Molotov em batalhas pelas ruas de Moscou e Leningrado. Sabiam que, depois da vitória Bolchevique, eles seriam os próximos decapitados por aquela mesma revolução que ajudaram conquistar. O poder descarta tudo e todos que atrapalham processos. Não há lenimento para abrandar a miserabilidade humana.
Um ator de talento
Mantendo a essência dessa arte tão difícil, __e graças a Deus, uma arte que ainda não foi digitalizada, __ Paulo Fabiano, com maestria e total domínio do corpo e da mente, constrói e desmonta seu personagem sobre o tablado. Ele coloca no centro, o nosso ser espiritual. Ali, no reino inacessível da supraconsciência, onde habita o nosso misterioso "EU" e a própria inspiração. (Ah, Nietzsch... Que maravilha o sékulo XIX, não?).
Pouco a pouco, no decorrer do espetáculo, Paulo Fabiano, com verdadeiras golfadas de perturbadores sentimentos, mostra o homem do novo sékulo, cobaia de um laboratório que pretende aniquilar esse nosso material espiritual mais importante.
Você tem razão, Nelson Peres; Atuar dói muito.
A Voz Subterrânea. Sextas e Sábados 21hs.
Fiódor Dostoieviski. Domingos 20hs.
Com Paulo Fabiano e Piê
Teatro X Rui Barbosa 399 Bela Vista.
Escrito por paulodetharso às 12h13
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