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Pra quando a noite acabar
A gente precisa de pouco;
De um bar distante
Com uma mulher dentro, só pra gente olhar.
Do copo sempre cheio de gelo à parte
Que é pra esfriar a cabeça
Quando a noite acabar.
ONDE
Onde vraie
Onde première
Onde candide
Onde lys et cygnes
Onde suer et l´ombre
Onde: Água em movimento
Escrito por paulodetharso às 11h32
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9 de abril de 1821
Nascia o herdeiro do romantismo negro de Edgar Allan Poe
Charles Baudelaire
Escrito por paulodetharso às 11h53
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O verdadeiro Prospector
É sabido que os escritores húngaros são complicados. E se for um escritor judeu, sobrevivente do Holocausto, é ainda mais complicado. E se é judeu, sobrevivente do Holocausto e filho da ditadura stalinista, aí o resultado é um vácuo que atordoa e que tem origem clara; o peso do totalitarismo na vida húngara.
Ser um escritor húngaro judeu é ser errante, é estar sempre em fuga, em transito, num exílio sem fim.
Mas não vá pensar que ao ler Imre Kertész, o leitor irá encontrar uma literatura ideológica profissionalizada, armada, engajada, ou de confissão. Não neste livro.
Nas 176 páginas do romance Eu, um outro, o escritor segue depascente e despassa a si mesmo, ao desmascarar a fragilitate humana.
Creio que Rimbaud não duvidaria nem tampouco questionaria isso porque, do seu verso; EU É UM OUTRO, Imre Kertész extrai uma história que coloca em xeque-mate os alicerces da ficção, desestruturando seus fundamentos com terremotos na alma. É a falência múltipla dos órgãos do gênero. Um colapso.
Sinto-me compelido a entrar nessa viagem, porque estou escrevendo (na verdade sofrendo de) um romance que me tira o sono, a paciência e muitas certezas. Estou aprendendo que escrever um livro com múltiplas identidades pode ser uma armadilha perigosa para o leitor e um trabalho fatigante para o escritor. Armadilha porque entra em labirintos cujas saídas são abismos, e fatigante no sentido em que o autor, ao entrelaçar essas identidades, cria uma zona de sombras que, em vez de estabelecer e determinar caracteres (e aqui falo das individualizações), os desmaterializa, os esfuma e os lança sem piedade ao vazio. Só mesmo com muito tino, habilidade aguçada e tenacidade pode o autor manter o ritmo, e chegar às resoluções críveis. Para Kertész os escritores são atordoados pelo vazio e assombrados pela escuridão. Não, caro sabichão não é o papel que deixa em branco o que não é, o que atormenta um escritor. É a escuridão. Kertész nos mostra isso e nos alerta; “O escritor deve evitar tornar-se espirituoso quando não achar mais o que dizer”.
Eu é uma ficção de que somos, no máximo, co-autores de nossa existência, uma vez que a maior parte dela é escrita à revelia de nossa vontade. Então, como narrar, descrever ou relatar essa aragem cósmica que é a vida? Abre outra questão; Quem você pensa ser? Essa idéia do Eu, que usamos com desembaraçada confiança e desenfreada altiveza, entra em colapso, em uma crise quase nunca tateada, ou apenas imaginada de forma longínqua, por quem escreve ou quer escrever. Digo isso, porque escrever é um trabalho árduo, ofício do demônio, labuta de húngaro e afã de Deus. Marcelo Mirisola não erra quando diz; “é o escritor quem deve dominar a obra, e não o contrário”.
Ler este livro faz com que eu pense em algumas pessoas que conheço (inclusive eu), e que desejam ou que até conseguem escrever. Não estou julgando e nem quero julgar. No entanto, me é impossível não observar que muitos desses que conheço, assim como eu, quando escrevem, escrevem confessando. O que não se percebe bem, ou simplesmente nós não conseguimos distinguir e admitir, é que a confissão não é outra coisa senão um disfarce da arrogância. E nós sabemos que, a empáfia, a soberba, a vaidade e a necessidade quase que infantil em atacar tudo e todo que não seja EU, é comum àqueles que buscam verdades absolutas.
É claro, um ficcionista também quer através do gênero, levar o leitor a crer na totalidade absoluta de uma realidade fantástica. Por isso não confessa. Ele engendra uma realidade paralela.
O prezado leitor consegue lembrar-se da peça “O Rinoceronte” de Ionêsco ? Este era polonês e também carregou o peso do totalitarismo. E foi com a mesma certeza de Kertész de que; ”seria um engano imaginar que minha vida me pertence”, que Ionêsco usou a máscara do teatro para provar isso, dando o mote ao crítico inglês Martin Esslin que cunhou a expressão Teatro do Absurdo. O absurdo da existência. Poderia ainda recorrer ao livro de Cervantes ”D. Quixote”: Quem narra a estória? Ora, não eram todos ficcionistas. Mas disso eu trato no romance que estou “sofrendo”.
Jamais fui crítico de porra nenhuma e não pretendo começar agora. Mas a leitura de Eu, um outro, causa sensações desagradáveis. A um escritor resta a certeza débil e transitória (por isso imaginária) de que ele deseja e precisa escrever, e por isso mesmo ele também sabe que toda convicção é uma mentira artificiosa, uma máscara que usamos para esconder a futilidade da verdadeira história pessoal de nossa vida que é também a história de nossas mortes. Ou ainda, uma máscara para esconder a literatura, invenção de um outro. Uma máscara para ocultar o fato de que dela nos apropriamos com nossa assinatura fraudatória e com nosso cinismo embusteiro.
Ao viver na escuridão, o escritor interpreta papéis. E ele sabe que esses papéis, apesar de serem máscaras que não lhe pertencem, ele as carregará como um fardo até o fim. Pode-se concordar que tudo é incerto.Mas será que por isso devemos parar de provocar o destino com nossas legítimas interrogações?
Por isso, caros imaginários escritores, tudo parece indicar que o homem não é verdadeiramente livre. Nem mesmo quando escreve. Porque nossos pensamentos, nossas emoções são determinados por um outro que não EU. Como diz Kertész; “nós não temos nada a ver conosco”.
Escrito por paulodetharso às 12h18
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