Ademir, Ademir…
Normalmente eu mesmo eskrevo minhas letras e múzykas. Às vezes tenho parceiros. Mas formalmente, quando isso akontece, eu sou o letrista. Sou ruím de violão. Mesmo quando faço a harmonia e a letra, prefiro que outro múzyko toque para eu poder kantar. E eu sempre esqueço as letras. É um inferno!
Mas o Ademir Assunção escreveu uma letra pra eu muzykar. Na verdade, eskreveu para mim. Puta honra e puta responsabilidade! O Pinduka é escritor e poeta. Essa letra é um puta desafio. É irregular e provocativa. É cheia de imagens, é ágil e matreira. É um suplício ( do ato de kryar) que nos iça do alto de uma verga e nos deixa kair várias vezes ao chão. Vai ser trabalho de gente grande. Obrigado, meu irmão de kopo, kruz e estrada.
Uma Vida Só
Ademir Assunção.
Ervas, trevas, tremores
Temores de que a casa caia
Nem sempre noites
de tórridos horrores
Nem sempre murros
com urros e riscar de facas.
Mas quando o sol solvente disssolve a paisagem
Eu viro muro de arrimo de mim mesmo e me aprumo
Há vida nas formigas
Tão minúsculas minúcias
Há vermes nas espigas
Tanto quanto brilham os dentes quentes dos vampiros
Nas noites de intrépidos ruídos
sob a luz da rua dos pavores
Mas quando a lua lunescente engole a paisagem
Eu bebo a brisa e sei que isso é só a vida
Uma vida só.
Escrito por paulodetharso às 15h01
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Rio de Janeiro, 11 de Julho
É meia-noite. Terminamos a primeira apresentação de “Efeito Urtigão”. Foi bem legal. Mas eu ainda não sabia que no sábado, dia 12, seria melhor. Bortolotto e eu estaríamos bem mais afinados. A Fernanda D`Umbra assistiria e elogiaria muito. Mas agora, dia 11, estou sentado no degrau de um bar, frente ao Centro Cultural Sérgio Porto, onde rola o CEP 20.000. Chove. Chove muito. Estou no segundo conhaque. O dramaturgo está dentro do bar conversando com uns amigos, enquanto Montenegro, D´Umbra e Chacal estão no Centro preparando-se para suas apresentações. Pierre, Luana, Ademir Assumpção e Dany, também estão lá. Levanto-me, vou até o balcão e peço mais uma dose, um bloquinho de papel e uma caneta. Volto ao degrau e tento escrever. Uma pantamo azul e branca 52084 da PMERJ encosta na porta do bar. Dois policiais armados até os dentes saltam da viatura e adentram o bar. Um homem, vestindo uma kalça larga e kazako e gorro pretos sai do bar e entra no kamburão. Passa algo para o policial que está no volante da viatura. Eles trokam umas risadas e o homem de preto volta para o bar. Os dois policiais saem do bar e um deles demora a entrar na pantamo. Fika em pé, sob a chuva e me enkara por um tempo. __Será que ele notou que eu anotei o número do karro?__ Olho de viés e depois para cima. Chove a chuva do demônio. A chuva de Deus só kai do céu, quando o policial retorna para dentro da eskura viatura e parte. Sinto o alívio da chuva de Deus, que molha meu rosto, encharka minhas vestes, me eskapa por entre os dedos e logo mancha o papel com a tinta azul da kaneta bic, borrando o que eu escrevia. Tento salvar o papel…Eu o guardo no bolso de minha jaqueta molhada. Chove aos kântaros. A imagem dela volta e eu não quero pensar em nada. Por que as lágrimas que ela salgou, têm que misturar-se à chuva para que eu disfarce a minha dor? Por que a dor? Perco a vontade de estar onde estou e de tentar me divertir, de misturar-me à turba e ser feliz.
Quero voltar para o hotel e dormir. “ vai ser difícil”__pensei. Aqui no Rio, não aceitaram minha receita azul, porque a receita é de São Paulo. Pergunto-me; E se eu precisasse de um Gardenal, komo seria? Provavelmente morreria na porta de uma pharmácia tentando convencer o balconista de que eu precisava realmente do medikamento. Que droga! Mas era apenas um Valium. Os meus últimos, dividi kom dois amigos antes de embarkar para o Rio. Volto para o Centro Cultural e penso em desintegrar. Bebo mais e fiko kantando Doors, numa salinha isolada do tumulto do evento. Perco-me do resto do pessoal e volto só para o hotel no Centro da Cidade. A imagem dela não se desfaz. Deixo minha mala no hotel e vou beber na Rua do Lavradio. Ninguém fala comigo e eu não quero konhecer ninguém. Fico sentado no meio-fio pensando num verso da letra que o Pinduka escreveu para eu musikar: “…ervas, trevas, tremores, temores de que a casa caia. Nem sempre noites de tórridos horrores, nem sempre murros com urros de riscar facas/ mas quando o sol solvente dissolve a paisagem, eu viro muro de arrimo de mim mesmo e me aprumo…”
A chuva de Deus cessa e o ar esfria. Volto meio bêbado para o hotel e consigo dormir. Sonho com ela, kom seu korpo esguio, kom seu sexo em chamas e kom amor que nunka faremos. No sonho, tenho vontade de matar alguém. Acordo com um sabor de vidro e korte, adocikado em minha boka. O lençol tem sangue. É sangue de meu nariz. Régis Santos, com quem divido o quarto, dorme e ronka muito. Tomo uma ducha e vou beber um kafé na Rua D.Pedro I. Passo em frente ao décimo terceiro batalhão da PM. Por um akazo infernal, dou de kara kom o policial da noite anterior. Ele me acena kom a kabeça. O dia é de sol.
Escrito por paulodetharso às 15h57
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2008. 40 Anos Depois.
Hoje, na França e no Brasil, os jovens parecem aturdidos por uma avalanche de livros que consagram um acontecimento que os concerne diretamente. Trata-se de saber a história de como seus pais e avós fizeram a França e o resto do mundo tremer. Trata-se de Maio de 68.
Em Março de 68, um jornalista amigo do meu velho Joka, o Ivo Zanini, estava em Tunis, junto com centenas de outros jornalistas do mundo todo, com aquele que até hoje é referência para muitos; o filósofo Michel Foucault, que ensinava na Universidade daquela cidade. Todo alvoroço em torno de Foucault era por conta de uma frase sua, no momento que os estudantes marchavam para Paris. Quando escrevo marchavam, é porque eles não invadiram a Universidade de Nanterre, nem a Prefeitura, tampouco o Ministério. Eles tomaram Paris.
Maurice Clavel, da administração públika, liga para Foucault e diz: “ Michel, os estudantes estão revoltosos!” Ao que Foucault responde: “ Não, você se engana. Eles são a revolta.”

Pode parecer tendencioso de minha parte, mas eu não posso deixar de pensar que a humilhação infligida por Israel em 1967 à armada árabe, que a imcomparável e fantástika Primavera de Praga, bem como o triste assassinato de Matin Luther King em 4 de abril e as manifestações em Washington, contra a guerra do Vietinã, fizeram com que Maio de 68, tenha sido, com certeza, o grande acontecimento que mudou o sékulo XX. Mudou a França e o mundo.

O Daniel Cavana( Dany Boy para quem não sabe ou desconhece a figura, é antes de tudo um homem de saber) disse-me outro dia: “ Agora irão matar os pensadores nos berços!”
Dá para entender…Vivemos hoje nos anos do Baby-boom. O Baby-boom da sociedade de consumo, onde índios do mundo inteiro trocam seus ideais por espelhinhos digitais, I pods, automóveis importados e paraísos artificiais do Club-Méd, pagos com cartões de créditos às custas de 9 milhões de mortes por fome no mundo todo a cada ano.
Hoje, as Universidades permanecem como Templos de um conhecimento que só elas pretendem deter. Elas não são! Elas não serão!
Alguns ainda permanecem fiéis aos ensinamentos dos mestres do pensamento Universal. Foucault, Bourdieu e Lacan fazem parte desse pensamento.
Mesmo aqui, entre nós, no país onde “ A brisa primeira balança as kaveiras”, restam pensadores e pensamentos. Mesmo os que já se foram deixaram em nossos corações e mentes, a centelha do saber. É verdade; temos um passado sombrio. Mas, mesmo isolados por rebeliões toskas ao final do II Império direto das mãos de golpistas republikanos, das confusões positivistas dos Jakobinos, mesmo governados por dirigentes déspotas, governos provisórios e mais 21 anos de ditadura militar, que contaminou todo o Cone Sul , ainda assim, podemos contar com a visão cinematográfika de Glauber Rocha e Rogério Sganzerla. Com a maestria de Paulo Freire e Darcy Ribeiro. Com a genealidade da fízyka quântika de Mário Shenberg. Com o original Kaos Kom K de Jorge Mautner. Com o jornalismo brilhante de Tarso de Castro. Com a múzyka de Villa Lobos, Noel Rosa, Adoniran Barbosa, Ismael Silva, Chico Buarque, Vinícios de Moraes, Mutantes, Melodia, até a lembrança de Sérgio Sampaio (que só Walter Figueiredo e Dany Angelotti souberam lembrar o que não se pode olvidar), além de Itamar Assumpção e Arrigo Barnabé e Lenine e Edvaldo Santana. Dos arranjos de Radamés Gnatalli, Rogério Duprat e Júlio Medalha e Tom Jobim… Das poesias de Oswald de Andrade, Paulo Leminski e Roberto Piva e Irmãos Campos…Do Parangolé de Hélio Oiticica e da morte heróika de Torquato Neto kontra o kanto burguês e enfadonho do Mano Odara e do senhor Ministro da Kultura…Do teatro revolucionário e resistente de Boal, Guarniere até o evolucionário e persistente Bortolotto…Da literatura___e aqui só kabe L maiúsculo___de Reinaldo Moraes e Marcelo Mirisola. E Marcelino Freire e Xiko Sá e o exilado Jorge Cardoso e tantos outros bons...Não, a arte não será mais um eskritório de morte.
Não meus velhos! Não será o fim. Porque a Terra, esta puta, kontinua germinando planta e flores delikadas de todas as kores. Inclusive as vermelhas flores de Maio.
E vamos para o Rio de Janeiro.
Escrito por paulodetharso às 15h32
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Planeta lindo! Povinho de Merda!

“Toda revolução, é uma tentativa de submeter a realidade a um projeto racional”.
Ortega y Gasset
Konflitos, miséria, danças, ignoranza, ódio, bares, cinemas prosperam…O amor morre.
Eu – Kabe a mim, eu dizia, lançar-me no turbilhão.
Amigo – E eu, fikarei de espectador.
Eu – Komunidade é opressão e servidão. Sou um anarquista convicto. Mas os conservadores, que são estes espertinhos de merda, começam a bombardear essa idéia imbecil de “ déjà vu”, implantadas em seus cérebros pelos papais de merda, também eles, proferindo kalúnias, espalhando violências e apedrejando as boas idéias kom seus ódios. Que kontinuem ignorando a Polítika, e em breve estarão todos na eskuridão da História. E a eskuridão da História é uma bicha histérika, que só porque foi expulsa de L´École des Baux Arts de Viena, resolve desenhar suástikas e uniformes com brasões, e sair gritando: Heil! Heil!....
Nem monarquia, nem aristokracia, tampouko essa merda de demokracia! Tudo isso é merda! Governo é poder absoluto. O absolutismo é odioso à razão e à “liberté”. Não existe liberdade!
Amigo- Então…Rei da razão?
Eu – Tu te achas esperto, né?
Amigo – Nada a ver! Só perguntei; E então?
Eu – Ninguém reina sobre mim ou me governa.
Amigo – Tem que pagar o imposto da kachaça.
Eu – Sai korrendo que eu tô sem dinheiro.
Escrito por paulodetharso às 16h20
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D.QUIXOTE E A MULHER QUE NÃO ME QUER
Quando gosto de uma mulher tento fazê-la enkolher para guardá-la em uma garrafa a fim de levá-la comigo no bolso. Nunca dá certo! Ela evapora.
Então, leio novamente D. Quixote e kavalgo a esmo. Quando chego a uma enkruzilhada, para não perder a pureza, não decido o caminho que devo tomar. Deixo que o kavalo escolha. E ele nunka escolhe o estábulo. Pois ele sabe que a glória está em qualquer parte, longe do celeiro.
Só para lembrar. Hoje, sábado, à meia-noite tem "MEDUSA DE RAYBAN". Teatro X Rui barbosa 399.
Escrito por paulodetharso às 13h15
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HERÓIS, GUERREIROS E GATOS.
Para ler o que escrevo, te passo um BG.
John Lee Hooker: Habo Blues e No Shoes. Claro, I´m stranger também. Mas aí seria legal ler Baudelaire antes.
Depois Muddy Waters: I just want to make love to you.
B.B King: A faixa 1 do lado A do LP que eu dei para um brother.
E termine a leitura, pela quarta vez, com Jimmy Reed, ao som de Honest I Do e Baby Wat You Want Me To Do.
Quando um moleque cresce numa família doente, seus heróis e guerreiros são arrastados para o rio por uma enorme onda, e ali lutam carregados correnteza abaixo.
O menino isolado tem mais em comum com cães e gatos do que com pessoas.
O pai, completamente bêbado, roçaga o menino para dentro. O menino rebela-se, foge e abandona a kaza.
Sua primeira noite fora é ao relento comendo com os gatos. Torna-se um gato arredio e alerta, equilibrando-se sobre os muros e telhas quebrados. E as noites são frias. O gato mia melodias tristes para espantar o frio. Dança uma dança oriental, com movimentos cuidadosos. Interpreta papéis obscuros e tristes. E toma o primeiro trem para Oceania.
A morte precoce dos guerreiros do homem impediu o crescimento da criança que nele existia.
No interior de uma família confusa, ele continuaria sendo humilhado, ofendido, decepcionado e atormentado durante anos e anos. Decide então, que melhor é o ódio de estranhos. Ali ele sabe quem são os predadores. Estará sempre em fuga para não fikar paralisado diante da vida. Foge pelas ruas, pelos becos esckuros da cidade e torna-se um outro. Vociferador, rekupera por um tempo a energia de Zeus, guardada no fundo d´alma e sangra as portas das moradas dos filhos de Davi, kom o sangue do Cordeiro.
Suas feridas ele lava kom água e sal. E está bem assim. Estará sempre de partida. Fazer a barra e partir. Para lugar nenhum. Mas sempre em movimento. Até o fim.
Escrito por paulodetharso às 21h08
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Amanhã, sábado e domingo no X
Um dia te chamam de gênio, no outro te chamam de burro! Devolvo a genialidade e a burrice.
Tem sempre alguém que irá te julgar. Tem sempre alguém pra te apontar o dedo na rua. Isso tudo é um sako! Isso tudo
não importa, na verdade!
Conflito, miséria e fome são as merdas da humanidade. Se você tem uma saída para isso, ótimo.
Do contrário é melhor fikar kalado.
Escrito por paulodetharso às 11h35
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AVISO
Não mandei nenhuma foto-texto para ninguém. Até porque meu e-mail não leva meu nome. É vírus!
Escrito por paulodetharso às 14h25
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AU DIABLE
PRIÈRE
Gloire et louange à toi, Satan, dans les hauteurs
Du Ciel, où te régnas, et dans les profondeurs
De l´Enfer, où, vaincu, tu rêves en silence!
Fais que mon ame un jour, sous l´arbre de Science
Pres de toi se repose, à l´heure où sur ton front
Comme un Temple nouveau ses rameaux s´épandront!
ORAÇÃO
Glória e louvores a ti, Satã, nas alturas!
Do Céu, onde outrora reinaste, e nas profundezas
Do Inferno, onde vencido sonhas em silêncio!
Faça que minh`alma, sob a Árvore da Ciência,
Possa repousar junto a ti, no dia em que tua fronte,
Como um Templo novo seus ramos se ampliarem!
BAUDELAIRE

Pra quem quiser entender o poema nos dias de hoje: JUSTICE
http://br.youtube.com/watch?v=zOPOIECS2Fy depois procure por Justice stress oficial vídeo.
Escrito por paulodetharso às 15h12
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Tape
Silêncio que incomoda. Os karas de kara, sob os olhos klaros da mina que mente.
Hoje às 21hs no Sérgio Cardoso
PARA MORRER DE RIR! PA-LA-VRA!
Hoje no Ruth Escobar às 21hs
MEDUSA
Hoje no Teatro X à meia-noite. A hora em que os assassinos acordam.
Escrito por paulodetharso às 14h20
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ESTRÉIA SÁBADO
17 de maio às 24hs
Texto de Mário Bortolotto.
Direção Didio Perini
Com a trupe do Teatro da Curva, que comemora seus 5 anos de existência nos palcos do Brasil Universal.
Elenco: Celso Tourinho, Celso Melez, Daniel Sommerfeld, Murilo Salles,
Ralph Maizza, Ricardo Gelli e Paulo de Tharso
Teatro X. Rui barbosa 399 Sábados às 24hs

Escrito por paulodetharso às 15h39
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Paulo Fabiano
Deus, Marx, EU e o Rato.
Fui ao teatro X assistir “A Voz Subterrânea”. Não sou crítico de teatro, mas gosto de teatro. Não sei falar dessa arte, mas gosto de ver gente talentosa no palco. Não sei analisar, mas sou fã de Dostoiéviski. Como disse outro dia, estou ator, e em breve estarei me despedindo dessa bela profissão que respeito muito, mas para qual não fui talhado. Depois de assistir esse espetáculo, isso ficou ainda mais claro para mim. Como ator, já esgotei todas as “vias e métodos de criatividade”. Portanto, cheguei ao limite do qual minha consciência (demasiada humana) não pode mais se estender.
A Peça.
O sax desconcertado em super tônikas, executadas com talento pelo músiko-ator Piê, surge sob uma luz tênue, no alto, à esquerda da platéia, e anuncia a conclusão destrutiva, porém extremamente filosófica, de um homem que fora funcionário público, e que agora, muito doente, começa a confessar. “Aos quarenta anos o homem confessa”.
Ele procura uma saída dessa desventura existencial, bramindo contra todas as teorias inventadas pelos homens, num desejo inglório de lançá-las por terra. Mas o que encontra, ao final dessa busca incontinente, é um buraco escuro e ignóbil, chamado século novo, aonde irá se esconder como um rato.
Esse texto, adaptação do livro “Memórias do Subsolo” de Fiódor Dostoievski (cujo conteúdo permanece inalterável, o que de saída já é uma proeza, pois é literatura de primeira grandeza), apresenta um personagem que assume sua decadência física, sua impotência e desilusão frente à humanidade. Antes mesmo de a Revolução Bolchevique eclodir o autor, em sua obra, proclama o fim do Maximalismo, Mencheviquismo e de todas utopias. Talvez por isso, anarquistas armados, pedissem aos seus soldados que lessem Pyotr Alexyevich Kropotikin e Fiódor Dostoiéviski, antes de acompanhar Molotov em batalhas pelas ruas de Moscou e Leningrado. Sabiam que, depois da vitória Bolchevique, eles seriam os próximos decapitados por aquela mesma revolução que ajudaram conquistar. O poder descarta tudo e todos que atrapalham processos. Não há lenimento para abrandar a miserabilidade humana.
Um ator de talento
Mantendo a essência dessa arte tão difícil, __e graças a Deus, uma arte que ainda não foi digitalizada, __ Paulo Fabiano, com maestria e total domínio do corpo e da mente, constrói e desmonta seu personagem sobre o tablado. Ele coloca no centro, o nosso ser espiritual. Ali, no reino inacessível da supraconsciência, onde habita o nosso misterioso "EU" e a própria inspiração. (Ah, Nietzsch... Que maravilha o sékulo XIX, não?).
Pouco a pouco, no decorrer do espetáculo, Paulo Fabiano, com verdadeiras golfadas de perturbadores sentimentos, mostra o homem do novo sékulo, cobaia de um laboratório que pretende aniquilar esse nosso material espiritual mais importante.
Você tem razão, Nelson Peres; Atuar dói muito.
A Voz Subterrânea. Sextas e Sábados 21hs.
Fiódor Dostoieviski. Domingos 20hs.
Com Paulo Fabiano e Piê
Teatro X Rui Barbosa 399 Bela Vista.
Escrito por paulodetharso às 12h13
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Mais nada, a não ser a madrugada.
Saio por aí com meu peito estourado de cigarro e dor.
Alquebrado, quedado e paralisado.
De repente, “amigos” com canos de armas, me olham estranhamente.
Vai ver que é por que os chamo pelos nomes.
Vai ver é isso! Eu os chamo pelos nomes, e eles preferem apelidos.
É, eu tive medo. Não me envergonho disso!
A impiedade na kara dos meus “velhos kamaradas” é o meu martírio.
Pior do que a tortura nas costas e sob as unhas, é o desprezo nos olhos.
Minha carne tem medo, mas não é covarde.
Morrer; é sem dúvida desagradável. Mas pior, é morrer enganado.
Vou mais uma vez sair de scena. Vou embora, pra outro lugar, vociferar minhas mazelas.
Não, dessa vez não é por causa dela. Sou eu, que fui expulso pelos meus brothers de armas.
Acho que cairei de olhos abertos, uma vez que mesmo deitado estou desperto e vejo uma procissão magnífica que passa diante deles. Execuções bárbaras orquestradas por um sistema de idéias que abomino. Tudo bem... Fui condenado a desejar o que não posso adquirir. Pelo menos não fiz o beija-mão para conhecer o mundo e sakar a kloaka que é a humanidade.
Mas tudo acontecerá na madrugada. Falo da morte.
Porque fika mais simples se for na madrugada.
Escrito por paulodetharso às 14h14
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Encore Léo
A loucura
A cadeira de Van Gogh onde você não senta
Os sapatos de Vincent que você não experimenta
A orelha desse cara que não te escuta mais
Pássaros negros, o trigo, numa tela perdida no cais.
Eu não hesito mais quando vejo a loucura
Faço suas encomendas e provo da sua doçura
As lágrimas desta árvore inquieta na floresta
A cadeira de Vincent, de que madeira era?
Nas ruas, os espiões andam encapuzados.
Os operários, engrenados, trocam de turno sem trégua.
Eu não hesito mais quando vejo a loucura
Eu atendo suas encomendas e provo da sua doçura
Os passos dessa criança no inferno da faculdade
Seu sexo, sua virtude e sua pouca idade
Quando a vertigem a penetra e ultrapassa
Sob o olho duplicado e gelado de um velho espelho que passa.
É nesse momento que perco a loucura
E fico sozinho com meus olhos de louco.
Léo Ferré
Tradução : Paulo de Tharso
Escrito por paulodetharso às 17h11
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Pra quando a noite acabar
A gente precisa de pouco;
De um bar distante
Com uma mulher dentro, só pra gente olhar.
Do copo sempre cheio de gelo à parte
Que é pra esfriar a cabeça
Quando a noite acabar.
ONDE
Onde vraie
Onde première
Onde candide
Onde lys et cygnes
Onde suer et l´ombre
Onde: Água em movimento
Escrito por paulodetharso às 11h32
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